domingo, 5 de setembro de 2010
O Mediador
Era, portanto, hora de confinar-se em seu próprio calabouço metafísico. Exposto sob espectros de luz de existência, então, duvidosa, ele matutava sobre suas ideias que transgrediam os paradigmas convencionados da realidade terrestre.
Era curioso o processo da criação - a existência desse sujeito perpassava e acompanhava todo o disco protoplanetário que emergia após o surgimento de uma estrela proveniente do seu próprio caos; só que nem ele mesmo existia por completo como imagem. Era provável, por enquanto, que fosse apenas um eco de existência proferidos por alguém de ordem superior.
Mas materializou-se, por fim: não tinha nada de extraordinário, o mediante era apenas um sujeito com um semblante taciturno, desgastado e resignado com sua própria atividade, com bigode e sobrancelhas despenteadas. Porém, não era o único nesse mundinho de valha-me-Deus: existe um espaço onde residem os discursos humanos um dia já ditos (pela palavra ou não), no qual habitam como devaneios, todos fundidos unilateralmente, com assuntos desorganizados, quase inviável de transmudá-los e, então, transportá-los através de palavras – são chamados, assim, de ideias inefáveis.
Os outros mediadores desses transporte de mensagens, contudo, geralmente estão sempre dispostos e, por isso, trabalham regularmente, veiculando o discurso àquele a que o deseje comunicar, dia após dia.
Não se pode, porém, julgar a indisposição de nosso mediador em trabalhar. Afinal, não se tratam de mensagens factuais, ou corriqueiras e banais, mas possuem a especificidade das metáforas, do fictício, do significado implícito ou não, e todos esses outros recursos que demandam uma das facetas do literário.
O que este mediador do qual tratamos tenta evocar agora – após uma breve visita à pocilga dos discursos – é de que é também justa a vida leviana da pessoa responsável pela administração do canal das mensagens (no caso do mediador: a escrita), com tudo de mais dionisíaco e passível de fazer sentido social.
Entretanto, ainda que se acentue a exaustão no rosto durante o processo de seu trabalho, o mediador muito sente pela interrupção da transmissão de suas mensagens e anseia, encarecidamente, que esse canal não se esqueça também daquilo que não é passível de fazer sentido.
E que o deixe trabalhar.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Memoria praeteritorum bonorum
Num cenário cuja importância é ínfima, lá estavam ele e ela (cuja importância do grau de intimidade deles é ainda menor) a contemplarem o único vazio de vazio que era o próprio quarto: a própria janela, embora fechada — cuja importância é, finalmente, desprezível.
— Mas veja, bem, foi melhor assim. Você ainda vai perceber — falava ele exasperadamente a uma ela transtornada e soluçante.
— Bem, mas que bem? Era a melhor coisa que me tinha acontecido — assoava seu nariz na manga dele e berrava encarecidamente. — aqueles olhos ternos, os lábios miúdos, acanhados... o rosto abarrotado de pêlos (embora sempre bem feitos) e o que dizer de todos seus gestos complacentes e seu modo galante de se portar? Tinha o humor ácido, embora refinado e sutil. Era um 'gentleman', embora também soubesse ser homem — relembrava-se e parava num súbito com um olhar distante, em seguida, tornava a chorar num berro — ahhh, se sabia...
— Estou dizendo: isso passa, minha querida
— E por acaso já aconteceu com você?
— Acontece com as pessoas o tempo todo. — parava e estudava as próximas palavras — e todas elas continuam a viver, sabe. Até, quero dizer, terem de ser perturbadas pela expectativa de vida do país em que estão, claro, e aí usadas como fonte de estudo. Mas isso não vem ao caso.
Ela tornou a berrar.
— Olha, se é que isso serve de consolo... se você fosse mil pessoas, sabe, você causaria algum déficit no seu país. Mas você é só uma! Olhaí — e sorria — que beleza!
Ela tornava a berrar.
Ele, então, meio constrangido, buscava ensandecidamente uma solução para tamanha falta de jeito:
— Veja, meu bem, vamos fazer uma análise introspectiva do seu caso, tá? Vamos, relembre-se: o que mais te satisfazia nesse relacionamento?
- Então, não sei decerto. Ahh, se você o conhecesse, também se apaixonaria torridamente. — ela ignorou seu olhar de estranhamento — Como dizia: aquele humor refinado, aquela mente cognitivamente privilegiada, incomensurável e ginecologicamente atraente... — atordoou-se um pouco, mas tornou a olhar para ele com um resto de sobriedade — Digo, acho que eram seus olhos ternos e a boca carnuda mesmo.
— Os lábios não eram miúdos?
— Isso. Miúdos. É que dependiam do ângulo do espectro de luz que incidisse sobre seu rosto.
— Ah. E os olhos eram turvos, não eram?
— Isso. Intransponíveis! Mas quando conseguia captá-los, de alguma forma, não pareciam querer bem sequer a uma formiga.
Ele, então, virou-se um pouco para a janela como quem não soubesse exatamente as próximas respostas, embora pudesse prever certeiramente, pelo menos, suas reações posteriores.
— ... E o rosto plano, macio...
— Não era abarrotado de pêlos?
— Sim, era. Digo da parte feita, então. — ela olha de volta atordoada a ele — Na verdade, não sei o que está me acontecendo. É você quem está me fazendo isso?
— Atualmente, não. Entretanto, considerando o seu recorrente comportamento, você pode me tornar um mago ou o que bem entender quando quiser, logo depois!
Ela o olhava e perscrutava intimamente seu rosto. Num súbito, então, arreganhou seus olhos e boca, como se tivesse sido guarnecida da mais completa e divina luz:
— Mas, meu Deus, você só deve ser um mago!
— Querida... — ele falava pacientemente — Não sou. Nada contra, mas, vai por mim, não sou.
Ela olhava
— É, sim.
— Não
— É!
— Dane-se — virava a cabeça — Continue sobre sua quimera...
— Pois é, se bem me lembro o seu rosto espetava tal como um cacto mesmo. — lembrava-se — Credo, e tinha um humor de um pedantismo... desnecessário! Lembro até de certo tempo que comecei a fazer certo esforço para rir de suas piadas incômodas e nem um pouco elegantes. E os olhos? Tinha mais pés-de-galinha que a própria ave. E a boca? Tinha uma mandíbula enorme, já o vi rugir certa vez. À noite, compartilhando da mesma cama que ele, tinha péssimas experiências oníricas envolvendo o dilaceramento de meus braços como resultado de mordidas sanguinárias dele — talvez porque o tenha visto almoçar certa vez. Espreguiçava-se de quatro e restos de papel higiênico sempre o acompanhavam tornando-o um animal rabudo e ajudando a definir, por fim, esse bi-zar-ro ser sub-humano que eu... que eu... ah, que eu tive o quê mesmo?
— Um relacionamento, se me lembro bem.
— Ah — tinha seu último tom de perplexidade — É isso. Obrigada, você, de todo jeito. Acho que realmente passou...
Virou-se e caminhou em direção à janela. Abriu-a. Enxergava tantas outras quimeras. Pensou que não, então. Portanto a fechou. Abriu de novo.Vista limpa de bestas mitológicas. Não sabia mais distinguir o real e o relatado homem. Entretanto, não era no quarto oco que iria conseguir ativar sua memória - além de que, sem o quarto, não se tornaria essa pessoa ensimesmada que estava sendo.
Fugiu, portanto. E sempre preferiu pensar que o tal homem do quarto era um mago — e de que havia escapado de um brutal assassinato por um ilógico leão, do qual ela própria havia sido cúmplice de sua criação.
— Mas veja, bem, foi melhor assim. Você ainda vai perceber — falava ele exasperadamente a uma ela transtornada e soluçante.
— Bem, mas que bem? Era a melhor coisa que me tinha acontecido — assoava seu nariz na manga dele e berrava encarecidamente. — aqueles olhos ternos, os lábios miúdos, acanhados... o rosto abarrotado de pêlos (embora sempre bem feitos) e o que dizer de todos seus gestos complacentes e seu modo galante de se portar? Tinha o humor ácido, embora refinado e sutil. Era um 'gentleman', embora também soubesse ser homem — relembrava-se e parava num súbito com um olhar distante, em seguida, tornava a chorar num berro — ahhh, se sabia...
— Estou dizendo: isso passa, minha querida
— E por acaso já aconteceu com você?
— Acontece com as pessoas o tempo todo. — parava e estudava as próximas palavras — e todas elas continuam a viver, sabe. Até, quero dizer, terem de ser perturbadas pela expectativa de vida do país em que estão, claro, e aí usadas como fonte de estudo. Mas isso não vem ao caso.
Ela tornou a berrar.
— Olha, se é que isso serve de consolo... se você fosse mil pessoas, sabe, você causaria algum déficit no seu país. Mas você é só uma! Olhaí — e sorria — que beleza!
Ela tornava a berrar.
Ele, então, meio constrangido, buscava ensandecidamente uma solução para tamanha falta de jeito:
— Veja, meu bem, vamos fazer uma análise introspectiva do seu caso, tá? Vamos, relembre-se: o que mais te satisfazia nesse relacionamento?
- Então, não sei decerto. Ahh, se você o conhecesse, também se apaixonaria torridamente. — ela ignorou seu olhar de estranhamento — Como dizia: aquele humor refinado, aquela mente cognitivamente privilegiada, incomensurável e ginecologicamente atraente... — atordoou-se um pouco, mas tornou a olhar para ele com um resto de sobriedade — Digo, acho que eram seus olhos ternos e a boca carnuda mesmo.
— Os lábios não eram miúdos?
— Isso. Miúdos. É que dependiam do ângulo do espectro de luz que incidisse sobre seu rosto.
— Ah. E os olhos eram turvos, não eram?
— Isso. Intransponíveis! Mas quando conseguia captá-los, de alguma forma, não pareciam querer bem sequer a uma formiga.
Ele, então, virou-se um pouco para a janela como quem não soubesse exatamente as próximas respostas, embora pudesse prever certeiramente, pelo menos, suas reações posteriores.
— ... E o rosto plano, macio...
— Não era abarrotado de pêlos?
— Sim, era. Digo da parte feita, então. — ela olha de volta atordoada a ele — Na verdade, não sei o que está me acontecendo. É você quem está me fazendo isso?
— Atualmente, não. Entretanto, considerando o seu recorrente comportamento, você pode me tornar um mago ou o que bem entender quando quiser, logo depois!
Ela o olhava e perscrutava intimamente seu rosto. Num súbito, então, arreganhou seus olhos e boca, como se tivesse sido guarnecida da mais completa e divina luz:
— Mas, meu Deus, você só deve ser um mago!
— Querida... — ele falava pacientemente — Não sou. Nada contra, mas, vai por mim, não sou.
Ela olhava
— É, sim.
— Não
— É!
— Dane-se — virava a cabeça — Continue sobre sua quimera...
— Pois é, se bem me lembro o seu rosto espetava tal como um cacto mesmo. — lembrava-se — Credo, e tinha um humor de um pedantismo... desnecessário! Lembro até de certo tempo que comecei a fazer certo esforço para rir de suas piadas incômodas e nem um pouco elegantes. E os olhos? Tinha mais pés-de-galinha que a própria ave. E a boca? Tinha uma mandíbula enorme, já o vi rugir certa vez. À noite, compartilhando da mesma cama que ele, tinha péssimas experiências oníricas envolvendo o dilaceramento de meus braços como resultado de mordidas sanguinárias dele — talvez porque o tenha visto almoçar certa vez. Espreguiçava-se de quatro e restos de papel higiênico sempre o acompanhavam tornando-o um animal rabudo e ajudando a definir, por fim, esse bi-zar-ro ser sub-humano que eu... que eu... ah, que eu tive o quê mesmo?
— Um relacionamento, se me lembro bem.
— Ah — tinha seu último tom de perplexidade — É isso. Obrigada, você, de todo jeito. Acho que realmente passou...
Virou-se e caminhou em direção à janela. Abriu-a. Enxergava tantas outras quimeras. Pensou que não, então. Portanto a fechou. Abriu de novo.Vista limpa de bestas mitológicas. Não sabia mais distinguir o real e o relatado homem. Entretanto, não era no quarto oco que iria conseguir ativar sua memória - além de que, sem o quarto, não se tornaria essa pessoa ensimesmada que estava sendo.
Fugiu, portanto. E sempre preferiu pensar que o tal homem do quarto era um mago — e de que havia escapado de um brutal assassinato por um ilógico leão, do qual ela própria havia sido cúmplice de sua criação.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Os Nuncas
Eram dois siameses e um seu estado integral. Os gêmeos Nunca-Passado e Nunca-Futuro, praticamente, reverzavam suas atividades, habitados em suas poeiras de nuvens ontológicas, confabulavam e discutiam sobre de quem era a vez de morder a língua. Nunca-Passado era um velho e Nunca-Futuro, obviamente, também. Tinham aparências diferentes, entretanto. Pretérito Imperfeito (com ou sem subjuntivo) - era um dos pseudônimos de Nunca-Passado - tinha a pretensão pelo arrependimento, pelo sentimento de impotência e afins - mas, por vezes, era um tanto orgulhoso, sim; estava na genética dos Nuncas. Se metia em frases tanto como "Ahhh, se eu soubesse, nunca teria...", como também "Ahh, mas nem se ele me amasse, nunca que eu ia...".
Futuro-Nunca, não. Ops, Nunca-Futuro, nessa ordem. É que até mesmo a narração tropeça por querer ostentar tão grande e insigne função desse tipo Nunca: todos o desejam, todos vivem por ele, todos anseiam em vê-lo, mas sempre sem sucesso. Na verdade, é sempre o mais citado, entretanto, sua carapaça inatingível se transforma imediatamente no Nunca-Presente. Enquanto Futuro, possui uma existência ínfima, quase um sopro vital que desaparece a cada "mas é claro que eu nunca farei isso...". Com seus milésimo de trilionésimo de segundos, o Nunca-Futuro consegue gozar de uma felicidade plena de vida. Sua desmaterialização, contudo, consegue ser tão, mas tão imediata, que certas cadeias simples de carbono que pairavam por aquelas bandas que se ofereceram como testemunhas oculares e o próprio Nunca-Passado apenas identificaram o momento de transformação do Futuro-Nunca em um elemento químico não terrestre. Alegaram, entretanto, que, com sorte, poderiam vê-lo, de fato, no futuro.
A comissão de linguistas, professores de gramática e afins encerravam o caso e acabaram, equivocadamente ou não, por tachar o Nunca-Passado como "o mais próximo que temos do Nunca-Futuro, até então". Com uma pontinha de desanimação, claro, pois sabiam que "o passado nunca iria construir o futuro. Nunca!" (exceto quando colocavam hífen em algumas palavras da frase e alteravam um pouco a pontuação, fazendo com que assim, pudessem a usar freneticamente).
A verdade é que o Nunca-Futuro era o messias dos linguistas, pois sabiam que quando ele comprovasse Sua existência, faria com que todos eles também finalmente entendessem a Santíssima Trindade dos Nunca e, certamente, por pertencerem a um então seleto grupo que entende algo tão complexo assim, seriam salvos.
Entretanto, enquanto isso não acontecia, discutiam, pois, a banalização do Nunca-Presente, que possui grande acomodação no tempo constante de frases como "eu nunca faço isso" e, consequentemente, atrela fundamentalmente seus atos também no passado, além de gerar expectativas num futuro que ele mesmo desconstruirá e desconstroi. Sabe-se também que, num gesto muito insolente, o Nunca-Presente se aproveita da falta de espaço de tempo do futuro para proferir frases que possuem a autoria do Nunca-Futuro.
Nesse espaço de poeira cósmica em que estão insertos, então, os que sobraram, Nunca-Passado e Nunca-Presente, discutem quem possui a natureza mais indefectível dos dois e, assim, alegavam coisas como "o único espaço de tempo que existe é o passado: tudo não passa de um registro de memória" e o outro replicava com "IDIOTA!! O QUE ACHA QUE ESTAMOS FAZENDO AGORA?!", o outro treplicava "o que você acabou de dizer já é passado. E isso também, e isso, e isso, e isso...", até receber um chute do outro que terminava com um "POIS TOME ESSE PRESENTE!!"
Confusos, atordoados e sentindo-se um pouco culpados, os linguistas, filósofos, professores, pesquisadores da comunicação e até mesmo os desocupados resolveram entrar num consenso e substituir os Nuncas pelo Jamais.
Mas quando descobriram que também isso não daria certo, resolveram abrir a mente para uma nova semântica nas próximas frases e aceitaram adotar o incerto "pode ser" ou o "quem sabe".
Cansados da falta de sentido que haviam criado e preocupados com a popularização das novas expressões, esses estudiosos resolveram cunhar uma sentença e soltá-la por aí como provérbio popular: para cada indivíduo incrédulo sobre a morte dos Nuncas, rapidamente diziam "Nunca diga nunca!"
E, assim, nos parece que o ciclo e a maldição dos Nunca pode ser que não tenha acabado. Quem sabe?
quarta-feira, 7 de abril de 2010
A pedra
AVISO: O Blogspot.com cansou de não se responsabilizar pela leitura e, atualmente, simplesmente não se importa.
Se algum dia me fosse concedido a dádiva de poder mudar qualquer coisa que considerasse como um fardo na vida, certamente seria o de ser o narrador onisciente. Longe de mim parecer ter má-vontade ao descrever minhas histórias. Mas entendam: defrontar com as mais absurdas e inverossímeis situações acaba desatinando qualquer ser vivo. Aliás, pertencer a um plano literário é relativizar minha existência: falo, penso, conto histórias, mas estou vivo? Afora isso, minha presença onisciente é o que vitaliza, de fato, as personagens de terceira pessoa. Antes de minhas observações, são apenas chumaços de inconsciência, uma neblina com um discurso inteligível para humanóides. E é minha função, portanto, converter essa comunicação - tão abstrata - em um canal mais acessível, como a língua.
O que mais me dói, porém, é jamais receber a real empatia do leitor acerca do meu tratamento com as personagens: ele jamais saberá - talvez chegue a saber, mas dificilmente valorizará - o quanto as cultivei, estudei e as guardei. E o quanto me dói a cabeça por estar em cima do muro que me separa entre o verossímil e o inverossímil.
Pois bem, sei que minhas procrastinações te irritam, mas como nunca manifesto minhas observações pessoais, achei que um pouco de desabafo não faria mal a ninguém. Perdoem a catarse e comecemos, leitor incompreensível:
Estava eu, sob a sombra de uma árvore, regado a mansidade e água fresca, quando - num ímpeto - um certo indivíduo velho e rancoroso perfura cenário literário adentro, de modo a rebater uma vastidão de letras e palavras desconexas diretamente na minha cara - soube, nesse instante, que seria mais uma daquelas cenas.
O velho, que comecei a simpatizar (talvez pela minha natural compaixão) aproximava-se de uma, igualmente velha, pedra.
- Boa tarde, minha cara. - dizia com certa dificuldade à pedra - Dias ensolarados estes, ein? Estão de rachar - e voltava a olhar, com alguma graça e malícia, para a rocha.
A pedra parava. O velho olhava com certa confusão entre o incômodo e a curisiodade. Resolveu se sentar.
- Sabe... agora que cheguei nesta etapa, percebo como é engraçado essa coisa de vida. No começo a gente chora, não quer participar, é obrigado a usar uns panos, sabe - olhava de volta para a pedra - Você não teve isso, não foi? - voltava a olhar, como se esperasse uma resposta.
A pedra rochava. O velho, então, continuou:
- Pois bem, daí surge sua mãe e lhe ensina umas coisas e lhe dá colo, e aí você sente que tudo pode ficar (e até fica) mais gostoso - olhava meio pra cima - e aí é a fase que você começa a aflorar o que depois vai acreditar se chamar "imaginação"... você acredita nisso? É engraçado como a língua pode tirar certas fortunas de uma criança. Você imagina que um menino tem um mundo todinho paralelo a este que conhecemos e posteriormente irão fazê-lo chamar isto de "uma invenção sua"? Eu, pelo menos, nunca acreditei que uma coisa que julgasse ser real não o seria por não pertencer a uma mente coletiva - falava com um tom na voz que beirava a brutalidade.
A rocha só pedrava, ainda assim.
O velho suspirava nostalgicamente e se deitava sobre a grama.
- Amanheceu rápido, não? - esperou uma resposta novamente, mas voltou a falar rapidamente - Digo, não tenho nada contra o dia, contudo gostaria que a noite demorasse mais - tossia - Isso me faz pensar na vida também. Tantas vezes que pedi uma tréguazinha ao tempo, sempre pedi "calma lá com a pressa". Só tenho uma vida pra viver e com tantas outras vidas. Vinte e quatro horas é tão pouco tempo pra um dia e, basicamente, nossa vida consiste unicamente neste dia - retornava o olhar cansado para a pedra - mas ele me respondia igualzinho a você.
A rocha rachava.
- Foi quando me tornei ranzinza. Não sei se me tornei assim reclamão por não conquistar plenamente meus objetivos ou se do contrário: não conquistei minhas ambições por ter me tornado ranzinza - franzia a testa, de modo a acentuar suas rugas; sua expressão havia conseguido se tornar ainda mais deprimente - Foi quando, então, me defendi do tempo. Entendi que não devia ter sentimento por alguém se não quisesse padecer ao ver esse objeto do meu afeto fenecer. Eu sabia que teria sentimento demais e me perguntei "se o tempo, que age diretamente com as pessoas, se mantém sempre vivo e com grande poderio sem necessariamente ser bom às pessoas... por que eu tenho de confiar... no afeto?"
O sol, à medida que ia descendo, incidia diretamente na pedra, fazendo-a rachar mais. Se alguém, além da pedra e de mim - que estou acostumado com esse tipo de diálogo de personagem - estivessem ouvindo aquele velho, certamente morreria antes dele.
- E então aprendi a lidar com a vida. Peguei-a de jeito, sabe. Fui duro como você. Não sei dizer se fui racional. Essa palavra é, em alguns casos, tão destrutiva assim como "imaginação" é pra mim: afinal, como defini-la se a gente tem referenciais que se divergem em relação ao que consideramos sensatez? - pensava - Como falava: trabalhei, dei duro. Deixei de lado um pouco novas oportunidades e pessoas, mas cumpri meu papel... acho.
O velho se acomodava mais na grama e falava com orgulho:
- Foi uma vida extenuante, mas lucrativa. E não é que eu goste de dinheiro, pode olhar pra mim e notar que sou simples - e se exibia em frente à pedra - mas precisava de um subterfúgio pra evitar o tempo. Tem gente que chama isso de "ideologia" - tosse forte e galantemente pede desculpas - Vá lá que seja. Eu cumpri minha missão. Fui bem nos negócios, tive uma vida estimuladora para os outros.
A pedra rachava mais fundo. Começava a estalar. O velho se assusta, mas, ainda absorto em sua linha de raciocínio, torna a voltar a falar:
- O que faz me sentir assim, meio vazio, meio sem guia agora, eu não sei. Temo ser a volta do tempo a atacar contra mim, temo ser essa velhice, mas acho que temo ainda mais não ser nada disso.
O sol estava a pino. A pedra estalava - rachava rachava e rachava - até que vários pedregulhos foram atirados, ricocheteados e estatelados no chão. Uma enorme cratera abriu-se na pedra que, com muito desengonço e numa voz grave e quase inteligível - juro, esta cena que é exdrúxula até mesmo para mim, narrador, que já deveria estar acostumado com este tipo de coisa - balbuciou:
- Que inveja de você que ao menos teve chance. Quem me dera um dia poder amar.
"Quem me dera um dia poder amar" - exatamente assim, sem saber se "dia" é objeto direto ou oração intercalada - eram as ondas sonoras que tinham a exata vibração que poderiam rachar a cabeça do velho.
E uma vez que ele não pôde falar, a pedra parecia ter roubado as suas cordas vocais e o deixou estático, duro, como se naquela específica conversa, só um pudesse falar e só um podia ser pedra - embora fosse difícil eleger o mais apto para tal cargo.
- Quem me dera um dia poder amar! Quem me dera um dia poder amar! Quemmederaumdiapoderamar!... - repetia a frase disparadamente uma atrás da outra
O sol já começava a baixar e a querida noite do pobre ancião estava por vir. Ele, entretanto, com o olhar completamente tomado pela pedra, a via expressar-se, com todo sentimento que podia, "Quem me dera um dia poder amar" e franzia seu rosto, enrugava-o, mas não entendia.
A pedra não tinha mais sol e não racharia, por enquanto - mas sabia que alguém iria fazê-lo em seu lugar.
E este foi todo o relato que tive. Não quis continuar naquele ambiente que me parecia agora inóspito e, então, voltei para cima do meu muro que separa o literário do não-literário. Não deveria ter me assustado, mas confesso que essa bizarrice me provocou medo - e, dado minha condição de personagem, tive até medo de ter esse medo.
Saí de lá e prefiro, por um instante, esvair minha confusa existência porque tive sensações que diria serem vagas e esquisitas demais para mim... mas confesso que mais incompreensível ainda é uma pedra "pedrar" pra sempre.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Vaca, não era?
O problema era ser vaca, não era?
Literalmente - e não o adjetivo de mau cunho. Mas bovina: gorda, malhada e tudo.
Talvez. Mas se tivesse nascido plâncton, o problema seria ter nascido plâncton – e seria um problema ainda maior o fato de, porque nasceu plâncton, não ter problema.
“Quem me dera ser um peixe” proferiu, em algum súbito de inconsciência, um tal de Fagner, e eu o teria parafraseado - se ele não tivesse perdido o fluxo de bons fluidos do seu inconsciente e, por um deslize, enveredado por caminhos de más intenções em suas hipotéticas habilidades aquáticas.
Mas esqueçam tantas delongas: o problema era ser vaca. Não teria outra natureza específica que eu almejasse, era só cansaço mesmo – mas se tivesse nascido uma coisa diferente a cada dia, seria constantemente a inconstância, portanto, metamorfose, outra natureza fixa da qual me cansaria, não era? Pensei se teria dado sorte se tivesse nascido humana. Daí lembrei que, como então mulher, acharia um problema achar que nascer como ser humano é um problema – então descartei a ideia.
Voltei a ruminar. Sei que parece ridícula a idéia do pasto em concomitância com os pensamentos filosóficos sobre a vida, mas, em minha modesta opinião de vaca apenas, há diversos comportamentos humanos também questionáveis e nem por isso estou discutindo com você.
Voltando: voltei ao meu pasto. Não era um peixe, já havia me conformado antes mesmo da música – mas tive uma fisgada. Ontológica, digamos. Sabia que se tivesse sido humana, estaria tão intrigadamente em torno do meu âmago que dificilmente pensaria na idéia da comunhão com outras vidas – ora, somos isso tudo aqui, todo esse cosmo, e não é porque entendo intimamente este corpo que carrego e que me pesa que sou apenas isso; como se o meu presente é a vida, o existir, e não este corpo? - e, portanto, dificilmente deixaria de possuir uma vida só humana.
Mas a vida – que por ser tão livre precisa ser segredo - só não é desvendada porque antagoniza o corpo – que é prisão. Mas tenho culpa se eu, vaca, desejo mudar isso nesta vida?
E mudaria, acharia um modo.
Discorreu Luís Fernando Veríssimo – sim, criei a habilidade de ler aqui, sou um animal bovino que sabe desfrutar astutamente das vantagens do mundo literário - em alguma crônica que Napoleão Bonaparte tinha a grande ambição de poder escrever, como não conseguiu, partiu para o plano B de dominar o mundo.
*suspira*
Pensei em mim e como me livrar disto – drasticamente, percebam - que é prisão: bem, escrever não seria para uma vaca nem mesmo aqui – tenho cinco minutos de fama agora, mas e quando minha estória acabar? - e sou modesta demais para dominar o mundo todinho.
Olhei adiante. Sabia que a estória iria começar nesse parágrafo:
Não estava mais no pasto, havia sonhado, talvez, mas um local fechado – acordei, inclusive, porque sou claustrofóbica – com supostas quatro rodas pesadas que me transportavam com outros desnorteados e avoados bovinos. A porta se abrira. Alguns açougueiros adiantes e algumas noções de realidade apreensiva surgiram nas pobres cabeças dos outros bois. Eis que: uma epifania! Uma visão miraculosa e algum sentimento de justiça que, juro, esse Deus não poderia ter me dado à toa!
E justiça seria feita – dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. E, com alguma ira animalesca e feminina, dou por mim na casa de animais: clientes assustados, carnes derrubadas. Mais nove haviam escapado. Direciono-me a um tal de Orlando, funcionário que salgava carne seca nos fundos, mas ele se tranca no banheiro. Nada. E minha ira bovídea de justiça? E a vontade de trocar a única natureza que possuo? Vá lá, ser assassina estaria mais pra ganhar um novo adjetivo que apenas me complementaria, mas não me faria tornar uma nova coisa, entretranto, ainda assim é mais de uma vida em uma só – e vida justiceira, não era?
Avistei um dos açougueiros. Peguei-o. Machuquei-o. Pisei. Pisei. Justiça era feita?
*suspira de novo*
Não...
Parece que minha suposta epifania teria se esvaído. Se tornar assassina não era criar uma natureza a mais em uma só vida, era só um adjetivo que corromperia – ainda mais - a comunhão de vidas que existia nesta de que vivemos e interagimos agora. E eu, pobre, só uma vaca.
Depois de machucá-lo violentamente, desisti. Das outras vidas bovídeas naquele infeliz recinto não tive notícias, mas eu segui. E tudo isto, apesar de tudo, ainda parece e tem tom de uma piada.
Mas se parei é porque se tornar assassina já não adiantaria – o problema era ser vaca, não era? Mas se tivesse nascido plâncton ou humano o problema seria o mesmo, talvez.
Digo talvez e não com certeza, porque assim deixo existir a dúvida de que não há como saber – uma vez que não posso, e nunca, estar na pele deles - e de que também há: existe a comunhão das vidas, não é? (ora, se deixo de existir, você também e vice-versa... isso não o incomoda?)
O problema era ser vaca? Era. Mas compenetrar em outras mentes e seus complexos mundos – ainda que eu não os conheça intimamente como este corpo – seria o meu placebo para não me cansar por ter uma vida apenas bovídia.
Literalmente - e não o adjetivo de mau cunho. Mas bovina: gorda, malhada e tudo.
Talvez. Mas se tivesse nascido plâncton, o problema seria ter nascido plâncton – e seria um problema ainda maior o fato de, porque nasceu plâncton, não ter problema.
“Quem me dera ser um peixe” proferiu, em algum súbito de inconsciência, um tal de Fagner, e eu o teria parafraseado - se ele não tivesse perdido o fluxo de bons fluidos do seu inconsciente e, por um deslize, enveredado por caminhos de más intenções em suas hipotéticas habilidades aquáticas.
Mas esqueçam tantas delongas: o problema era ser vaca. Não teria outra natureza específica que eu almejasse, era só cansaço mesmo – mas se tivesse nascido uma coisa diferente a cada dia, seria constantemente a inconstância, portanto, metamorfose, outra natureza fixa da qual me cansaria, não era? Pensei se teria dado sorte se tivesse nascido humana. Daí lembrei que, como então mulher, acharia um problema achar que nascer como ser humano é um problema – então descartei a ideia.
Voltei a ruminar. Sei que parece ridícula a idéia do pasto em concomitância com os pensamentos filosóficos sobre a vida, mas, em minha modesta opinião de vaca apenas, há diversos comportamentos humanos também questionáveis e nem por isso estou discutindo com você.
Voltando: voltei ao meu pasto. Não era um peixe, já havia me conformado antes mesmo da música – mas tive uma fisgada. Ontológica, digamos. Sabia que se tivesse sido humana, estaria tão intrigadamente em torno do meu âmago que dificilmente pensaria na idéia da comunhão com outras vidas – ora, somos isso tudo aqui, todo esse cosmo, e não é porque entendo intimamente este corpo que carrego e que me pesa que sou apenas isso; como se o meu presente é a vida, o existir, e não este corpo? - e, portanto, dificilmente deixaria de possuir uma vida só humana.
Mas a vida – que por ser tão livre precisa ser segredo - só não é desvendada porque antagoniza o corpo – que é prisão. Mas tenho culpa se eu, vaca, desejo mudar isso nesta vida?
E mudaria, acharia um modo.
Discorreu Luís Fernando Veríssimo – sim, criei a habilidade de ler aqui, sou um animal bovino que sabe desfrutar astutamente das vantagens do mundo literário - em alguma crônica que Napoleão Bonaparte tinha a grande ambição de poder escrever, como não conseguiu, partiu para o plano B de dominar o mundo.
*suspira*
Pensei em mim e como me livrar disto – drasticamente, percebam - que é prisão: bem, escrever não seria para uma vaca nem mesmo aqui – tenho cinco minutos de fama agora, mas e quando minha estória acabar? - e sou modesta demais para dominar o mundo todinho.
Olhei adiante. Sabia que a estória iria começar nesse parágrafo:
Não estava mais no pasto, havia sonhado, talvez, mas um local fechado – acordei, inclusive, porque sou claustrofóbica – com supostas quatro rodas pesadas que me transportavam com outros desnorteados e avoados bovinos. A porta se abrira. Alguns açougueiros adiantes e algumas noções de realidade apreensiva surgiram nas pobres cabeças dos outros bois. Eis que: uma epifania! Uma visão miraculosa e algum sentimento de justiça que, juro, esse Deus não poderia ter me dado à toa!
E justiça seria feita – dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. E, com alguma ira animalesca e feminina, dou por mim na casa de animais: clientes assustados, carnes derrubadas. Mais nove haviam escapado. Direciono-me a um tal de Orlando, funcionário que salgava carne seca nos fundos, mas ele se tranca no banheiro. Nada. E minha ira bovídea de justiça? E a vontade de trocar a única natureza que possuo? Vá lá, ser assassina estaria mais pra ganhar um novo adjetivo que apenas me complementaria, mas não me faria tornar uma nova coisa, entretranto, ainda assim é mais de uma vida em uma só – e vida justiceira, não era?
Avistei um dos açougueiros. Peguei-o. Machuquei-o. Pisei. Pisei. Justiça era feita?
*suspira de novo*
Não...
Parece que minha suposta epifania teria se esvaído. Se tornar assassina não era criar uma natureza a mais em uma só vida, era só um adjetivo que corromperia – ainda mais - a comunhão de vidas que existia nesta de que vivemos e interagimos agora. E eu, pobre, só uma vaca.
Depois de machucá-lo violentamente, desisti. Das outras vidas bovídeas naquele infeliz recinto não tive notícias, mas eu segui. E tudo isto, apesar de tudo, ainda parece e tem tom de uma piada.
Mas se parei é porque se tornar assassina já não adiantaria – o problema era ser vaca, não era? Mas se tivesse nascido plâncton ou humano o problema seria o mesmo, talvez.
Digo talvez e não com certeza, porque assim deixo existir a dúvida de que não há como saber – uma vez que não posso, e nunca, estar na pele deles - e de que também há: existe a comunhão das vidas, não é? (ora, se deixo de existir, você também e vice-versa... isso não o incomoda?)
O problema era ser vaca? Era. Mas compenetrar em outras mentes e seus complexos mundos – ainda que eu não os conheça intimamente como este corpo – seria o meu placebo para não me cansar por ter uma vida apenas bovídia.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Rapidinha
Há algum tempo atrás censurava os textos espontâneos. Quero dizer, até não, alguns súbitos de espontaneidade criaram interessantes parágrafos, mas a matéria bruta não era usada como viera ao mundo, somente estratificada, triturada, jogado no trigo, amassada até obter uma massa única, levado ao forno e hum... Nem sempre a receita certa. (Acho que devo ter esquecido o fermento.)
Hoje, não. Perdoe-me: agoríssima, nesse instantíssimo, não. Isso porque já perdi algumas pequeníssimas divagações ― e você sabe, as divagações comportam-se da mesma forma que o homem e a mulher em pré-relacionamento o fazem no período da conquista: é preciso muita conversa e muita lábia para que ela ceda. Primeiro, se deve entendê-la, depois captar o direcionamento do assunto ― e é precisto estar precavido de alguma bagagem de conversação, pois, em casos de lacunas "papeativas" (Deus salve a América e os neologismos!), lembrar-se de usar jogo de cintura para voltar a assuntos que o deixem seguro ― e BENG! As mocinholas, os rapazóides e as divagações estão em suas mãos. (Não me pergunte, porém, que diabos de som a onomatopéia ali no meio deveria imitar ou que deveria acontecer nesse meio tempo.)
Ahh... a vida, as divagações, os cosmos e os relacionamentos são questões mais pragmáticas do que contrariamente está incutido na mente dos seres humanos. Às vezes ― digo isso porque estou escrevendo minha divagação, mas, pela cara estranha que essas palavras fazem, devo estar avançando muito rápido neste encontro ― é preciso esquecer um pouco o requinte e, ao partir com espontaneidade, ir despindo uma letrinha aqui, cortejar a virilidade do "R" ali, tocar uma entrelinha... Hummm...
Como vocês podem ver, qualquer asno, livrando-se da artificialidade, pode se meter num relacionamento ou numa divagação ― por piores e efêmeras que sejam.
Nenhuma palavra mais quer ceder a mim, entretanto. (seria o desgosto pela onomatopéia estranha que nos atrapalhou?)
Desconfio que acabo de ter um péssimo encontro.
Hoje, não. Perdoe-me: agoríssima, nesse instantíssimo, não. Isso porque já perdi algumas pequeníssimas divagações ― e você sabe, as divagações comportam-se da mesma forma que o homem e a mulher em pré-relacionamento o fazem no período da conquista: é preciso muita conversa e muita lábia para que ela ceda. Primeiro, se deve entendê-la, depois captar o direcionamento do assunto ― e é precisto estar precavido de alguma bagagem de conversação, pois, em casos de lacunas "papeativas" (Deus salve a América e os neologismos!), lembrar-se de usar jogo de cintura para voltar a assuntos que o deixem seguro ― e BENG! As mocinholas, os rapazóides e as divagações estão em suas mãos. (Não me pergunte, porém, que diabos de som a onomatopéia ali no meio deveria imitar ou que deveria acontecer nesse meio tempo.)
Ahh... a vida, as divagações, os cosmos e os relacionamentos são questões mais pragmáticas do que contrariamente está incutido na mente dos seres humanos. Às vezes ― digo isso porque estou escrevendo minha divagação, mas, pela cara estranha que essas palavras fazem, devo estar avançando muito rápido neste encontro ― é preciso esquecer um pouco o requinte e, ao partir com espontaneidade, ir despindo uma letrinha aqui, cortejar a virilidade do "R" ali, tocar uma entrelinha... Hummm...
Como vocês podem ver, qualquer asno, livrando-se da artificialidade, pode se meter num relacionamento ou numa divagação ― por piores e efêmeras que sejam.
Nenhuma palavra mais quer ceder a mim, entretanto. (seria o desgosto pela onomatopéia estranha que nos atrapalhou?)
Desconfio que acabo de ter um péssimo encontro.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
A arte de entender a subjetiva comunicação objetivamente

Benício. Os olhos turvos, média estatura, a calvície e a longa idade. O paletó asseado, a nobreza. A antiguidade, a longa descrição, as luvas na mão para que essas não sejam eivadas pelas asqueiras da vida, a hipocondria. A pontualidade na escrita. Sobretudo, a objetividade. A objetividade clássica, a aparência jônica e a vida metrificada.
Tudo isso em ruínas.
Eu, que te poupei o trabalho de que tu que tenhas que estereotipar uma personagem, ao vagar pela ilha de Bora Bora (desconfio que a falta de objetividade comece aqui), deparo com uma figura de campo energético extremamente intenso e carregado. Apesar de a contragosto, fui carregado a esta curiosa personagem por uma força maior (não, "força maior" é de uma subjetividade versátil demais, falemos de "curiosidade" - que, por ser sentimento, é ainda muito subjetivo, contudo é mais genérico)
- Bom dia! – soltei, muito polidamente
- Grunf! – retornou-me pomposamente a figura
- E então... – fui persuadindo-a de mansinho – não vai se apresentar, se nomear, explicar, estereotipar? Os leitores e as personagens figurantes – Ah, leitor, esqueci-me de citá-las, é que elas sempre perambulam pelas estórias e histórias sem serem percebidas mesmo... – estão ficando aflitos com seu conturbado campo!
- Por quê? – rodopiava a figura
- Questão de continuidade de raciocínio... sabe como é que é... trava.
- Pois bem – chicoteava a figura – sou um zigurate babilônico e me chamo Objetivo.
Agora, sim! Todo o cenário imaginativo havia mudado e nunca me senti tão tolo e absurdo por falar com algo semelhante a... Torre de Babel. Moldei-me todo para acreditar tal naquela situação tão inconcreta, de modo que pudesse me acomodar, normalizar a situação e, portanto, me sentir são. (desconfio que isso tenha sido a segunda parte da falta de objetividade.) Suspirei, mas não consegui conter o esganiço:
- Como podes tu, logo tu, seres objetivo? Se tu estás a falar com a figura do homem: a real objetividade?
- Credo, pra quê tanta pompa num papo coloquial, amigo? – o zigurate boqueou-me e como retomei o olhar com ódio e frustração, tornou-se a responder – certo, se estiver entendendo, assinta com a cabeça, ...? - e, objetivamente, me lançou um olhar com curiosidade.
- Benício.
- Benício. Certo, Benício, assinta com a cabeça quando estiver entendendo, ok?
Eu assenti.
- Vejamos: se é você a objetividade... – narigava ele – então, seguindo sua própria linha de raciocínio, eu só posso ser o que sobrou: a subjetividade. Concorda?
Eu assenti.
- Portaaanto... nada mais subjetivo do que uma objetividade sendo subjetiva – ele, incrivelmente e objetivamente sorriu – não é mesmo?
Eu parei de assentir. Esmiucei todo (claro que metaforicamente!) e gaguejei:
- A-acho que estou com um pouco de dor de cabeça.
O zigurate encarava um bem-te-vi que passava.
- Grunf! – galantemente o fez para o pássaro e imediatamente virou-se para mim – isso é erro seu, sabe... desde pequeno, quando aprendeu a comunicação oral e a aprimorou em seu amadurecimento. Se tivesse usado todas as comunicações que estavam incutidas em você quando pequerruxo – e você as sabia usar, na medida do possível -, não teria problema. No entanto, concentrou-se meramente em uma e, cada dia mais, foi implodindo as outras formas de se comunicar, sabe...
- E daí? – falei concentradamente muito são: sim, eu havia conseguido!
Como resposta, o zigurate, que agora afirmava se chamar Rosseau (perguntei: “por causa do filósofo?”, ele retrucou “nah... tive uma namoradinha que gostava do nome”), entoou a 9ª sinfonia de Beethoven – sua arcádia dentária tinha sido substituída por teclas de piano.
Eu não perdia o orgulho. Nem a pose. Mesmo diante de tamanho nonsense! Os princípios e a imagem são as coisas mais objetivas que um ser (inanimados, animados... dane-se! “Não entender” é também de uma objetividade pura) pode ter. (desconfio que isso tem sido a terceira parte mais subjetiva.)
Deus, como pensar com essa música?
Uma das personagens figurantes, entretanto, se achou de aparecer porque eu as havia apresentado no início. Era Alexandre, o Grande. E o que era pior: tendo como companhia de sua caminhada Diógenes, o Cínico – que implantara rodinhas em seu barril para um bom passeio pela fabulosa vista de Bora Bora
- Salve, salve, camarada! Eu e o Di – e apontava pra Diógenes – estamos agradecidos por ter nos impulsionado a aparição. A propósito, se quiseres alguma e qualquer coisa, peças ao Di, e não a mim!
E com sua ida, não pude deixar de notar que, embora ainda com expressão muito emburrada, o quão cheio de adornos estava o Di! Entretanto, não era ainda o que mais me intrigava:
- Como podem eles não fazer sentido se são de carne e osso?
- São personagens históricas, portanto, memória humana – e essa é passível de alterações. Não são carne e osso, mas fazem mais sentido do que você pensa: note essa cordialidade entre eles! A memória pode até vir com seus contratempos, mas, se soubermos como, dá para usá-la como representante da afetividade, por vezes.
- Não entendo. – roubava o cinismo de Diógenes.
O Zigurate, incrivelmente e mais uma vez objetivamente, olhou-me e triturou-me cada pedacinho (é claro que metaforicamente!):
- o seu “não entender” não faz o menor sentido.
Como se por vingança de ter meu orgulho ferido e por questões de princípios, invadi hall adentro daquele enorme zigurate. Subitamente, objetividade e subjetividade começaram a se difundir, de modo que o abstrato se tornava mais fácil de se entender e o concreto se relativizava. Como desconfiei que esse caos seria, portanto, criação minha, acabei – por ironia do destino – por me defender da forma mais insana que pude. Não me abaixei (embora tivessem concretos que literalmente caiam), não corri: me belisquei.
Acordei.
...
Fui olhar a janela. As pessoas passavam umas as outras. Algumas se comunicavam verbalmente. Consolidavam relações, empatias. Uma ou outra criança corria ao fundo. Tudo seria objetivamente. A menos que elas não queiram tão só e pouca comunicação.
Desconfio que esse sonho e estas idéias não tenham sido partes tão subjetivas assim.
Em prol disso, pararei de escrever e espero, então, que a nossa comunicação continue a ser compreendida.
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