Sabe a sensação de sentir vontade de pular diante de uma grande altura? Bem, eu não tenho. Já tive, no entanto, medo de um impulso despreparado pra tal queda.
Eu me mazelava a pensar nesse impulso. Talvez por que, justamente, eu ainda me queixava assustada como uma gazela sobre o tombo, digamos subjetivo, que eu havia levado. Eu, dona d’um nariz raro e suíno, passei a caminhar toda eriçada como porco-espinho – e fazendo porcarias de metáforas e agora trocadilhos como estes – pra me manter distante do que me era próximo.
Até que então dei por mim dentro dum taxi, ouvindo histórias e curiosidades de um engenheiro aposentado do sotaque marcadamente gaucho. Não demorou muito pra ele perceber, através do espelho, meus tiques nervosos de mexer no nariz durante a conversa. Após uma pergunta curiosa do taxista e um breve resumo sobre umas expectativas (me desculpem amigos que evitei o papo, era uma conversa (de) passageira), o taxista me olhou pelo espelho, riu e falou com sua voz ritmada:
- Você anda pensando errado. Quer uma dica? Nada vai dar certo.
- Nada vai dar certo? Como o filme? – disse rindo – Mas isso faz sentido?
- Claro que faz. Quando dava aula, por exemplo, dizia isso a meus alunos antes de qualquer seminário “Fiquem calmos. Nada vai dar certo.”. Funcionava, eles se sentiam mais relaxados, no mínimo por terem rido como você.
Ele falava com tanta honestidade que tive de comprar. O que concebo, hoje, após ouvir conselhos de “dar tempo ao tempo” é que às vezes não dá certo e às vezes, pior, dói por demais o baque.
Bem, que essa noção de uma eventual realidade paralela – note: nem sempre adversa – aos nossos planos nos torne mais corajosos. Não desejo o pessimismo nem pregar uma filosofia estóica, mas precisava fazer uma correção (já com o devido crédito) do mantra que, algumas vezes, simplesmente não dava certo.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
domingo, 6 de novembro de 2011
Meus 20 e poucos
Eu fixamente acompanhava o ponteiro dos segundos enquanto percebia, nele, o maior barulho de toda a casa durante a madrugada. Esse mínimo tinir durante o dia foi o que incitou esses noventa decibéis cá dentro. Era 1h da manhã quando eu havia de pensar na obssessiva procura da natureza da experiência em Arendt e Walter Benjamin e resolvi quebrar o raciocínio pra pensar nas minhas obsessões por experiência nesses meus quase, como mostrava o tic-tac do relógio da cozinha, vinte e poucos anos. Havia tanto ruído por cá que o corpo vibrava.
Mais de vinte e poucos segundos se passavam e me forçavam a querer reconhecer minhas raízes e descobrir o que, além das células, do dinheiro gasto em depilação, bebida e afins, havia finalmente mudado no corpo que habito. Eu desconfio. O limbo interno, onde algumas ideias ficavam presas, estava disposto a prendê-las a salvo de mim mesma. Consequentemente, meu poder de conclusão das ideias debilmente funcionava. Era preciso reinventar e maturar, mas havia um cretinozinho invasor, um corpo estranho, se criando cá dentro.
Não eram nem vinte e poucos completos ainda, mas já havia mais de vinte e poucos relacionamentos nas costas. Como ardiam esses corpos e como ardia a razão daqueles que viam sua individualidade e sexualidade serem abstraídas ao não conseguirem mais com facilidade penetrarem-se dentro de si após uma penetração no outro: “1/16 de individualide por uma lambida na nuca!” e viciavam-se e prometiam-se exclusividade só (só?) para garantirem o uso de nossos mais de seiscentos mil pontos de sensibilidade espalhados pelo corpo.
E, a fim de reproduzirem esse aborto de amor oriundo dos entes e amigos mais queridos com o acréscimo da monogamia e do consequente desejo da posse do sexo do outro, negociavam suas individualides. Quebrariam a cara, mas negociariam futuramente e além. E, enquanto não tiverem o acordo dos deuses com um rostinho agradável, continuariam a completar mais de vinte e poucos anos fantasiando pessoas e, eventualmente, se perguntando em madrugadas barulhentas o quanto de individualidade foi deixada no meio do sexo dos outros.
Mais de vinte e poucos segundos se passavam e me forçavam a querer reconhecer minhas raízes e descobrir o que, além das células, do dinheiro gasto em depilação, bebida e afins, havia finalmente mudado no corpo que habito. Eu desconfio. O limbo interno, onde algumas ideias ficavam presas, estava disposto a prendê-las a salvo de mim mesma. Consequentemente, meu poder de conclusão das ideias debilmente funcionava. Era preciso reinventar e maturar, mas havia um cretinozinho invasor, um corpo estranho, se criando cá dentro.
Não eram nem vinte e poucos completos ainda, mas já havia mais de vinte e poucos relacionamentos nas costas. Como ardiam esses corpos e como ardia a razão daqueles que viam sua individualidade e sexualidade serem abstraídas ao não conseguirem mais com facilidade penetrarem-se dentro de si após uma penetração no outro: “1/16 de individualide por uma lambida na nuca!” e viciavam-se e prometiam-se exclusividade só (só?) para garantirem o uso de nossos mais de seiscentos mil pontos de sensibilidade espalhados pelo corpo.
E, a fim de reproduzirem esse aborto de amor oriundo dos entes e amigos mais queridos com o acréscimo da monogamia e do consequente desejo da posse do sexo do outro, negociavam suas individualides. Quebrariam a cara, mas negociariam futuramente e além. E, enquanto não tiverem o acordo dos deuses com um rostinho agradável, continuariam a completar mais de vinte e poucos anos fantasiando pessoas e, eventualmente, se perguntando em madrugadas barulhentas o quanto de individualidade foi deixada no meio do sexo dos outros.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Carta do Innerself
Conversar consigo mesma é uma bosta. Não há greve dos Correios que me impeça de receber isso aqui:
"Amada, essa é a primeira vez que farei uso da escrita livre. Não pretendo que seja a última, assim como não pretendo que seja público (ao menos não pretendia quando escrevi há um mês atrás). Pretendo que seja meu e seu, que seja um exercício de organização mental.
A mente de um tímido, você sabe, é curiosamente detestável. Há um turbilhão de palavras na mente do enrustido que se potencializam e não necessariamente evoluem de maneira positiva. Se aprofundam, porque é isto que bem sabe fazer estes pudicos que, céus, não desejam macular o mundo com seus pensamentos profanos. E estas são suas sinas: embora inventivos, contentam-se em resvalar em seu profundo si-mesmo e permanecerem lá, estatelados em suas neuroses.
Por esse motivo, entoo a prece: que os textos saibam abrigar as ideias da mesma forma que a consciência recolhe algum substrato do inconsciente. E que as técnicas de redação sirvam como um superego em seu mais saudável estado - que não exista para tolher a essência do texto, mas torná-lo intelegível a todos aqueles que ainda não desenvolveram telepatia. E que, Jesus!, não me apareça mais esse recorrente pé grande do Monty Python no momento da concretização textual.
Que os textos metalinguísticos possam se tornar uma opção (ou mesmo um sub-tema) e não a única saída. Que assim seja.
Um beijo, amada, cuida dessa saúde mental,
and thanks for all the oxygen,
Innerself"
"Amada, essa é a primeira vez que farei uso da escrita livre. Não pretendo que seja a última, assim como não pretendo que seja público (ao menos não pretendia quando escrevi há um mês atrás). Pretendo que seja meu e seu, que seja um exercício de organização mental.
A mente de um tímido, você sabe, é curiosamente detestável. Há um turbilhão de palavras na mente do enrustido que se potencializam e não necessariamente evoluem de maneira positiva. Se aprofundam, porque é isto que bem sabe fazer estes pudicos que, céus, não desejam macular o mundo com seus pensamentos profanos. E estas são suas sinas: embora inventivos, contentam-se em resvalar em seu profundo si-mesmo e permanecerem lá, estatelados em suas neuroses.
Por esse motivo, entoo a prece: que os textos saibam abrigar as ideias da mesma forma que a consciência recolhe algum substrato do inconsciente. E que as técnicas de redação sirvam como um superego em seu mais saudável estado - que não exista para tolher a essência do texto, mas torná-lo intelegível a todos aqueles que ainda não desenvolveram telepatia. E que, Jesus!, não me apareça mais esse recorrente pé grande do Monty Python no momento da concretização textual.
Que os textos metalinguísticos possam se tornar uma opção (ou mesmo um sub-tema) e não a única saída. Que assim seja.
Um beijo, amada, cuida dessa saúde mental,
and thanks for all the oxygen,
Innerself"
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Ode(-)aos seres atemorizadores
Antes mesmo de iniciar este parágrafo, só para constar, queria deixar claro minha relutância em iniciá-lo. Se já fiz o estrago, é porque nem mesmo as ideias banais devem ser relegadas. Não porque elas podem ser boas ideias disfarçadas, ou porque – leiam com pedantismo – “possuem a profundidade resgatada do mais longínquo pueril pensamento” (e não preciso nem explicar a metafísica possível dessas doces lembranças) mas porque, se não as expurgarmos de alguma forma, elas nos dominam.
“Ode-aos seres atemorizadores” é muito mais forte do que eu ou você. É um impulso descontínuo que, em qualquer sinal de alarde, te cobre nestes indesejados momentos... mas infelizmente – e justo por ser intermitente – falho. Ao decorrer da companhia muito longa do semi-conhecido, do desconfiado parente de um ex, de um atual ou simples e genérico como qualquer ser que, maldosamente ou não, te prepare um maçante e indelicado questionário a fim de espicaçar e atormentar a dura quitina do qual tentávamos metamorfosear só um tiquinho que o fosse, é que então acontece.
Paranóia presa na garganta – porque as sensações mais iminentes do corpo sempre ficam por lá –, uma explosão de corante sobre o rosto, chumaço de algodão no lugar do cérebro e, consequentemente, todos os sistemas do organismo trabalhando irregularmente e entrando num caos generalizado, como o encurtamento das pregas vocais, por exemplo, que, num ato desesperado e irracional – desconfia-se de relação com o sumiço da massa encefálica – resolvem mutilar-se, de modo a provocar uma voz mais aguda e fina do que a normal, além de alguns engasgos devido a alguns órgãos da garganta fora do lugar.
Com muita engenhosidade, o lado esquerdo do chumaço te propõe a ser o que você não é, porém, o lado direito, aquele capaz de lograr com êxito o tamanho desafio da criação, está ocupado demais já fazendo surgir um pequeno pé-de-feijão dentro de si.
Esse é o momento. Muitos pontos aqui. A Terra caminha num slow motion. A pessoa te olha. Espera um início de conversa. Enquanto isso, no entanto, você está estatelado e profundamente intrigado sobre como é possível crescer um pé-de-feijão no corpo e, o que é mais incrível... num algodão. O lado direito, graças, improvisa:
- Mas esse engarrafamento, viu?
“Ode-aos seres atemorizadores” é muito mais forte do que eu ou você. É um impulso descontínuo que, em qualquer sinal de alarde, te cobre nestes indesejados momentos... mas infelizmente – e justo por ser intermitente – falho. Ao decorrer da companhia muito longa do semi-conhecido, do desconfiado parente de um ex, de um atual ou simples e genérico como qualquer ser que, maldosamente ou não, te prepare um maçante e indelicado questionário a fim de espicaçar e atormentar a dura quitina do qual tentávamos metamorfosear só um tiquinho que o fosse, é que então acontece.
Paranóia presa na garganta – porque as sensações mais iminentes do corpo sempre ficam por lá –, uma explosão de corante sobre o rosto, chumaço de algodão no lugar do cérebro e, consequentemente, todos os sistemas do organismo trabalhando irregularmente e entrando num caos generalizado, como o encurtamento das pregas vocais, por exemplo, que, num ato desesperado e irracional – desconfia-se de relação com o sumiço da massa encefálica – resolvem mutilar-se, de modo a provocar uma voz mais aguda e fina do que a normal, além de alguns engasgos devido a alguns órgãos da garganta fora do lugar.
Com muita engenhosidade, o lado esquerdo do chumaço te propõe a ser o que você não é, porém, o lado direito, aquele capaz de lograr com êxito o tamanho desafio da criação, está ocupado demais já fazendo surgir um pequeno pé-de-feijão dentro de si.
Esse é o momento. Muitos pontos aqui. A Terra caminha num slow motion. A pessoa te olha. Espera um início de conversa. Enquanto isso, no entanto, você está estatelado e profundamente intrigado sobre como é possível crescer um pé-de-feijão no corpo e, o que é mais incrível... num algodão. O lado direito, graças, improvisa:
- Mas esse engarrafamento, viu?
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Meio cheio e meio vazio
- Boa tarde, querido psicólogo, perdoe-me o atraso – sacudia os pelos – não sabia que teria de derrapar pela vala para ter de adentrar no Departamento das ideias inconcebíveis – voltava a verificar no papel o endereço do local – espero que não se importe com meu modo de fazer higiene – dizia, enquanto já lambia todo o pelo encharcado da água imunda sem algum constrangimento.
Do outro lado do divã, residia sob o assento um velho recalcado, de vestimenta tamanho GG surrada e abatida, acompanhado de uma caixa de lenços à esquerda e um monte de lenços usados empapados em suor jogados à direita. Observava com seu não tão útil monóculo a criatura que tinha invadido seu escritório.
- Olivas. Querido psicólogo, não. E você, senhor, a que devo... – retirava e recolocava o monóculo a fim de tornar mais crível a criatura que requisitava sua ajuda – por favor, antes, me diga o que exatamente você é!
- Querido Olivas, que faculdade te graduou?! Esperava mais delicadeza ao me interpelar.
- Você sabe por que tem de passar por um esgoto para chegar aqui, não sabe? Não faço muito sentido e mesmo semana passada, tive um trator com problemas existenciais como paciente... – olhava novamente a figura do divã – mas esse rabo eriçado com essa gravata engomada me assusta.
- Isso, sou uma espécie intermediária entre um hominídeo e um felino – debruçava-se de costas, enquanto retirava prontamente de seu paletó um novelo de lã – esta é uma de minhas engenhocas: meio novelo, meio iô-iô. Tenho a preguiça e a manha do gato, mas nem por isso relego os entretenimentos humanos – dizia com tanta segurança e soberba, que passava ser fácil julgar o meio-homem-meio-felino num bicho muito do sensato.
Olivas suava em bicas.
- O seu, hm... o seu problema, por favor.
Meio-felino estendia-se para se sentar, com toda a manha e carisma.
- Estou preguiçoso, Ol. Foi assim que me tornei miscigenado. Devia ser completamente uma destas criaturas. Mas perdi o foco e não sei – na verdade, tenho preguiça de pensar se sei – se isto pode me arruinar ou não. É como se o cacau pudesse formar um chocolate que é meio amargo, mas que não deixa de ter o meio doce.
O psicólogo o olhava atentamente, tentando entender qual o ponto a se entender da metáfora.
- A questão é: tudo que é meio vira dois pequenos inteiros ou só meio mesmo?
- Desconfio que seu caso seja pior e menos comestível que o exemplo.
- Você atendeu um trator.
- E você está sendo prolixo.
O meio-hominídeo se espreguiçava de quatro.
- Vou começar: era ambicioso, mas virei preguiçoso, logo meio trabalhador, meio vagabundo. Não sou magro, porque exercício físico me aborrece. Também não sou gordo, porque se queixar dá preguiça. Sou meio astuto, porque adquiri a engenhosa malícia de desviar de momentos fatigantes. Mas sou meio burro, porque franzir a testa pra muito refletir me cansa hoje e me cansará em problemas futuros com rugas. Já fui meio subordinado, depois meio CEO e consequentemente nesse “meio”, não fui nenhum dos dois exatamente ou fui os dois inteiramente em proporções menores – cuspia bolas de pelos, enquanto ajeitava a gravata – entende meu ponto? Não virei meio-bicho-preguiça porque alguém devia achar meio óbvio.
O psicólogo jogava seu monóculo sobre a mesa: “que saudade do trator!”
- Você não está meio confuso? – dizia ele então com pouco entusiasmo.
- E você meio com preguiça, Ol! – começava a se sentir ainda mais nervoso – Cuidado, se te vicias, não vá querer conversar comigo sendo meio-camundongo!
Subitamente, no divã, após uma grande carga elétrica desencadeada pelo acelerado e irreal batimento cardíaco ocasionado pelo seu meio estresse, meia altivez – o que Olivas e nós, particularmente, julgamos sem sentido – meio-hominídeo-meio-felino metamorfoseou num meio hominídeo-meio-enguia.
O caro Ol bebia um gole de café “trator, trator, ahhh trator...” e se dirigia à porta, pois já não era mais seduzido pelos ternos olhos de seu antigo paciente bola de pelos.
Num desatino final, então, a parte hominídea, ainda molhada da água suja, recebe uma descarga de 3 ampères da parte enguia. Enquanto enguia, se sentia feliz o hominídeo por realizar a sua preguiça de viver, enquanto a outra parte desfrutava o prazer de não participar do impacto que era deixar de existir.
A nossa sorte é que o fim, por ser uma estória (mesmo meio estúpida), é inteiro.
Do outro lado do divã, residia sob o assento um velho recalcado, de vestimenta tamanho GG surrada e abatida, acompanhado de uma caixa de lenços à esquerda e um monte de lenços usados empapados em suor jogados à direita. Observava com seu não tão útil monóculo a criatura que tinha invadido seu escritório.
- Olivas. Querido psicólogo, não. E você, senhor, a que devo... – retirava e recolocava o monóculo a fim de tornar mais crível a criatura que requisitava sua ajuda – por favor, antes, me diga o que exatamente você é!
- Querido Olivas, que faculdade te graduou?! Esperava mais delicadeza ao me interpelar.
- Você sabe por que tem de passar por um esgoto para chegar aqui, não sabe? Não faço muito sentido e mesmo semana passada, tive um trator com problemas existenciais como paciente... – olhava novamente a figura do divã – mas esse rabo eriçado com essa gravata engomada me assusta.
- Isso, sou uma espécie intermediária entre um hominídeo e um felino – debruçava-se de costas, enquanto retirava prontamente de seu paletó um novelo de lã – esta é uma de minhas engenhocas: meio novelo, meio iô-iô. Tenho a preguiça e a manha do gato, mas nem por isso relego os entretenimentos humanos – dizia com tanta segurança e soberba, que passava ser fácil julgar o meio-homem-meio-felino num bicho muito do sensato.
Olivas suava em bicas.
- O seu, hm... o seu problema, por favor.
Meio-felino estendia-se para se sentar, com toda a manha e carisma.
- Estou preguiçoso, Ol. Foi assim que me tornei miscigenado. Devia ser completamente uma destas criaturas. Mas perdi o foco e não sei – na verdade, tenho preguiça de pensar se sei – se isto pode me arruinar ou não. É como se o cacau pudesse formar um chocolate que é meio amargo, mas que não deixa de ter o meio doce.
O psicólogo o olhava atentamente, tentando entender qual o ponto a se entender da metáfora.
- A questão é: tudo que é meio vira dois pequenos inteiros ou só meio mesmo?
- Desconfio que seu caso seja pior e menos comestível que o exemplo.
- Você atendeu um trator.
- E você está sendo prolixo.
O meio-hominídeo se espreguiçava de quatro.
- Vou começar: era ambicioso, mas virei preguiçoso, logo meio trabalhador, meio vagabundo. Não sou magro, porque exercício físico me aborrece. Também não sou gordo, porque se queixar dá preguiça. Sou meio astuto, porque adquiri a engenhosa malícia de desviar de momentos fatigantes. Mas sou meio burro, porque franzir a testa pra muito refletir me cansa hoje e me cansará em problemas futuros com rugas. Já fui meio subordinado, depois meio CEO e consequentemente nesse “meio”, não fui nenhum dos dois exatamente ou fui os dois inteiramente em proporções menores – cuspia bolas de pelos, enquanto ajeitava a gravata – entende meu ponto? Não virei meio-bicho-preguiça porque alguém devia achar meio óbvio.
O psicólogo jogava seu monóculo sobre a mesa: “que saudade do trator!”
- Você não está meio confuso? – dizia ele então com pouco entusiasmo.
- E você meio com preguiça, Ol! – começava a se sentir ainda mais nervoso – Cuidado, se te vicias, não vá querer conversar comigo sendo meio-camundongo!
Subitamente, no divã, após uma grande carga elétrica desencadeada pelo acelerado e irreal batimento cardíaco ocasionado pelo seu meio estresse, meia altivez – o que Olivas e nós, particularmente, julgamos sem sentido – meio-hominídeo-meio-felino metamorfoseou num meio hominídeo-meio-enguia.
O caro Ol bebia um gole de café “trator, trator, ahhh trator...” e se dirigia à porta, pois já não era mais seduzido pelos ternos olhos de seu antigo paciente bola de pelos.
Num desatino final, então, a parte hominídea, ainda molhada da água suja, recebe uma descarga de 3 ampères da parte enguia. Enquanto enguia, se sentia feliz o hominídeo por realizar a sua preguiça de viver, enquanto a outra parte desfrutava o prazer de não participar do impacto que era deixar de existir.
A nossa sorte é que o fim, por ser uma estória (mesmo meio estúpida), é inteiro.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Com açúcar, com Moleskini
Toma, meu querido, esse texto é todo pra você. Pode não ser nenhuma ida ao moinho ou mesmo como sentir o orvalho da manhã sob a inexplicável visão miraculosa de cães se engalfinhando numa celebração tórrida e afável do amor. Mas é maior que isso, coração. É um prato de paciência encardida que, por alguns minutos, decidi esterilizar em algumas páginas de um, então protegido, Moleskini. É uma caixa de Pandora às avessas. É uma vastidão da subjetividade das palavras que, com esmero, te aprofundam num bando de palavras preguiçosas - a característica pecaminosa da preguiça surgiu por conta de sua vulgaridade em querer se deleitar com todos os corpos que puder encontrar, portanto não me julguem pela carne fraca - e de credibilidade questionável.
Todo pra você, querida lobster, esse nosso refúgio que é também um limbo da nossa terceira dimensão do sonho, o globo eclipsado que existe mas não está. (como explicar o verbo to be com você, seu lindinho?) O fosso do início da matéria e também da não-matéria e que, ainda que perdure esse mesmo buraco de existência em cada indivíduo em suas relações interpessoais - e é, portanto, um dos responsáveis por tanta falha de comunicação entre as pessoas - ainda assim eu te dou esse texto; nosso buraco mais embaixo, a pequena ultrapassagem na barreira de compreensão entre dois seres.
E eu dedico, com todos os suspiros celestiais, para esse caloroso amor desejado por Boris Grushenko que engloba o intelectual, espiritual e, o tão justo, sensual.
Toma, toma, toma. Toma logo essa caprichosa matriz genérica de texto que, após acordar certa manhã de sonhos intranquilos, fiz pra você. Toma, que é pra nunca mais duvidarem da minha sensibilidade no amor após fixar o olhar num ponto do quarto e muito franzir a testa.
Todo pra você, querida lobster, esse nosso refúgio que é também um limbo da nossa terceira dimensão do sonho, o globo eclipsado que existe mas não está. (como explicar o verbo to be com você, seu lindinho?) O fosso do início da matéria e também da não-matéria e que, ainda que perdure esse mesmo buraco de existência em cada indivíduo em suas relações interpessoais - e é, portanto, um dos responsáveis por tanta falha de comunicação entre as pessoas - ainda assim eu te dou esse texto; nosso buraco mais embaixo, a pequena ultrapassagem na barreira de compreensão entre dois seres.
E eu dedico, com todos os suspiros celestiais, para esse caloroso amor desejado por Boris Grushenko que engloba o intelectual, espiritual e, o tão justo, sensual.
Toma, toma, toma. Toma logo essa caprichosa matriz genérica de texto que, após acordar certa manhã de sonhos intranquilos, fiz pra você. Toma, que é pra nunca mais duvidarem da minha sensibilidade no amor após fixar o olhar num ponto do quarto e muito franzir a testa.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Enxaquecas, irrelevâncias e mangas
Tudo começa com certos dias de uma específica malemolência e enxaqueca (queixa, inclusive, quase nunca extinta em minha vida).
Qual a minha, portanto? Protelar mais um trabalho para depois. Ok, isso eu consigo. Tirar certos proveitos da fraqueza, como um afaguinho extra de próximos: ai, como dói, como dói, fica aqui pertinho, por favor? Ok, isso eu também consigo.
Dói tanto, aliás, que até intercambiar do conto pra crônica — gênero que, por minha discrição e falta de vontade de conversar diretamente com as pessoas, deixei cair no meu ostracismo particular — tornou-se meio sedutor.
Mas, justo agora, o maior de todos os conselhos (exceto quando dado por Chico Buarque) eu não consigo segui-lo à via de regra: já havia tentado dormir e, ainda assim, não passou.
Sucederam-se, então, horas e horas feitas a esses pequenos golpes de solidão barthianos (notem como minhas expressões estão sendo apelativas para executarem, com sucesso, o segundo exemplo de aproveitamento de fraqueza, no qual vocês, em um honroso e nobre gesto altruísta do dia, podem ajudar a constituí-lo), até que... foi me acontecendo. Eu, que já tenho a cabeça compromissada com um engajamento sério e promissor na filantropia com outros mundos, planos e dimensões, fiquei horas recebendo imagens sem, no entanto, processá-las devidamente nos confins do meu lobo occipital – que tão antes e com tão esforço, ele fazia.
Foi aí que surgiu, simultaneamente com a fraca voz, a falta lexical, as orações subordinadas sem as suas principais (“... que eram lânguidos esses abraços de frescor parisiense”, “... que comia com tanta veracidade, enquanto lembrava do professor”), perpassando até então por aleatórios pensamentos que, se não tinham sentido semântico e/ou sintático, eram ainda inocentes. Foi quando beirar a superfície do pensamento não foi suficiente. Eu sabia, quase podia sentir a construção de “A bunda, que engraçada...”. Nem a linha de raciocínio mais leviana passa incólume à experiência de um indivíduo. Há alguma profundidade pueril nas idéias leves (que provavelmente são apreendidas em uma dessas viagens filantrópicas transcendentais – e que não se entendem bem na volta, porém).
Foi assim, quando o organismo, sem respeito algum a mim e ao meu enjôo da enxaqueca, resolve atestar fome.
Quer iogurte, querida? Não, mãe, muito doce. Mas você também não quer jantar. Não quero comida de verdade, nem pão, nem nada salgado; é algo meio gelado, acho. Ah, então tem sorvete, querida. Não, não, é muito doce também. Então, o quê? Ah, tem manga? Sim, é isso! – dizia eu, após um perfeito e exato fluxo de consciência. Mas você acabou de comer, lindinha, você só está comendo isso. Que o seja, traz, por favor.
Minha mãe, pensando, ergue os olhos para cima e para esquerda (e assim sei que não mente, mas está a lembrar de algo, acredito, realmente relevante nesse momento decisório sobre o rumo que minhas posteriores horas de pequenos golpes de solidão irão tomar)
– Mas, meu amor, eu não sei cortar daquele jeito.
Entenda “aquele jeito” o jeito que a moça que trabalha aqui em casa sabia. E ah, eu também não sabia. Mas, e agora? Mesmo os pensamentos levianos podem se tornar ideias fixas – e não tem nada de inocente na profundidade das consequências de uma ideia assim, certo?
Então não quis. Se não era cortado daquele jeito, então tinha de comê-la aceitando o ritual de ter de se melar e passar pela casca e pelo fiapo que engloba o “chupar uma manga” (além do fato de, semiologicamente falando, eu odiar esse verbo e ter de ser obrigada a usá-lo, pois não poderia negar o processo)
E fui ficando assim, solta, a condicionar a melhora de cada tinir da minha cabeça à essas mangas e irrelevâncias. Mas é inútil dormir, afinal elas não passam.
Qual a minha, portanto? Protelar mais um trabalho para depois. Ok, isso eu consigo. Tirar certos proveitos da fraqueza, como um afaguinho extra de próximos: ai, como dói, como dói, fica aqui pertinho, por favor? Ok, isso eu também consigo.
Dói tanto, aliás, que até intercambiar do conto pra crônica — gênero que, por minha discrição e falta de vontade de conversar diretamente com as pessoas, deixei cair no meu ostracismo particular — tornou-se meio sedutor.
Mas, justo agora, o maior de todos os conselhos (exceto quando dado por Chico Buarque) eu não consigo segui-lo à via de regra: já havia tentado dormir e, ainda assim, não passou.
Sucederam-se, então, horas e horas feitas a esses pequenos golpes de solidão barthianos (notem como minhas expressões estão sendo apelativas para executarem, com sucesso, o segundo exemplo de aproveitamento de fraqueza, no qual vocês, em um honroso e nobre gesto altruísta do dia, podem ajudar a constituí-lo), até que... foi me acontecendo. Eu, que já tenho a cabeça compromissada com um engajamento sério e promissor na filantropia com outros mundos, planos e dimensões, fiquei horas recebendo imagens sem, no entanto, processá-las devidamente nos confins do meu lobo occipital – que tão antes e com tão esforço, ele fazia.
Foi aí que surgiu, simultaneamente com a fraca voz, a falta lexical, as orações subordinadas sem as suas principais (“... que eram lânguidos esses abraços de frescor parisiense”, “... que comia com tanta veracidade, enquanto lembrava do professor”), perpassando até então por aleatórios pensamentos que, se não tinham sentido semântico e/ou sintático, eram ainda inocentes. Foi quando beirar a superfície do pensamento não foi suficiente. Eu sabia, quase podia sentir a construção de “A bunda, que engraçada...”. Nem a linha de raciocínio mais leviana passa incólume à experiência de um indivíduo. Há alguma profundidade pueril nas idéias leves (que provavelmente são apreendidas em uma dessas viagens filantrópicas transcendentais – e que não se entendem bem na volta, porém).
Foi assim, quando o organismo, sem respeito algum a mim e ao meu enjôo da enxaqueca, resolve atestar fome.
Quer iogurte, querida? Não, mãe, muito doce. Mas você também não quer jantar. Não quero comida de verdade, nem pão, nem nada salgado; é algo meio gelado, acho. Ah, então tem sorvete, querida. Não, não, é muito doce também. Então, o quê? Ah, tem manga? Sim, é isso! – dizia eu, após um perfeito e exato fluxo de consciência. Mas você acabou de comer, lindinha, você só está comendo isso. Que o seja, traz, por favor.
Minha mãe, pensando, ergue os olhos para cima e para esquerda (e assim sei que não mente, mas está a lembrar de algo, acredito, realmente relevante nesse momento decisório sobre o rumo que minhas posteriores horas de pequenos golpes de solidão irão tomar)
– Mas, meu amor, eu não sei cortar daquele jeito.
Entenda “aquele jeito” o jeito que a moça que trabalha aqui em casa sabia. E ah, eu também não sabia. Mas, e agora? Mesmo os pensamentos levianos podem se tornar ideias fixas – e não tem nada de inocente na profundidade das consequências de uma ideia assim, certo?
Então não quis. Se não era cortado daquele jeito, então tinha de comê-la aceitando o ritual de ter de se melar e passar pela casca e pelo fiapo que engloba o “chupar uma manga” (além do fato de, semiologicamente falando, eu odiar esse verbo e ter de ser obrigada a usá-lo, pois não poderia negar o processo)
E fui ficando assim, solta, a condicionar a melhora de cada tinir da minha cabeça à essas mangas e irrelevâncias. Mas é inútil dormir, afinal elas não passam.
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